Tuesday, November 09, 2004

CINCO POEMAS de Luís Quintais

«A Imprecisa Melancolia»

Nada o distrairia nessa procura, disse.
Este o recado da contingência:
era verão
e fazia muito calor.
Saía cedo, cortando
a passos lentos
a sombra das 9,30.
Caminhar até à vertiginosa
queda dos poentes.
Assinalar uma cinza,
a imprecisa melancolia.


« NO TEU SONHO»

No teu sonho um homem esculpia um cavalo
Sob um fundo verde.
Estes são os sinais com que haveremos
de salvar a memória,
de estarmos assim os dois calados
depois da breve descrição de um sonho
que eu invejei por momentos,
pois são sempre tão pobres
ou sumamente ridículos os meus sonhos.
O que fomos, o que somos
um para o outro
não interessa.
Ao franquearmos a intransponível porta,
de repente, a tua voz deixou
de irromper no tecido amargurado da minha alma,
essa fina folha de papel onde deposito
a escrita, a narrativa do voo,
o desassossegado sonho azul e verde.
Estamos longe dos meses em que éramos
espectros sorrindo ternamente
nos sonhos um do outro,
intangível negócio de almas que se depreciavam
na mútua espera.
No teu sonho um homem esculpia um cavalo
sob a turva alegria dos teus olhos
inundando-se
de um fundo azul e verde.


« AS PROPOSIÇÕES POÉTICAS»

As proposições poéticas,
mensuráveis como a distância que separa as
[margens de um rio,
são primeiro circunstanciais,
depois arrogam-se da experiência de todos.

Um verão abstracto cola-se ao vocabulário
[do inverno,
o inverno presente.
Uma luz cinzenta torna-se azul:
vai, passo a passo,
ao encontro do estio.

E o estio é a mente, a mente que se separa do tempo,
mede o rio com rigor
e anota a sede que se alojara
no vento
que sopra e antes não soprava,
que despe as árvores e as lança
para a memória que as veste
magnificamente.

Ó árvore cheia do verde das folhas
e do azul da imaginação,
torna-te agora poema
___ És agora verão.


«EM 1940 KLEE»

E m 1940, Klee coleccionava obsessões,
[«grandes signos negros»,
Arquétipos do medo?
Em breve, os corpos iriam tremer
com essa possibilidade:
a do Tempo que se regozija
com a antropofagia dos actores
e do seu luto.

Assusta-me a coerência primitiva,
a ardósia da noite.
Vultos que se dedicam a jogos
de morte
simulacros de vida,
convénios de perfeição e dor.

É dos sonhos de que te quero falar,
desse que se erguem
sobre a fortuna da atrocidade,
sugerindo sublimes recados,
isso a que chamam arte.
Na tela do gosto, Klee
percorria a cegueira do indizível.
Mais tarde diluir-se-ia
na não resposta dos seus signos negros
que, entretanto,
queimariam o mundo.


«POSTAL ILUSTRADO»

Uma figura de mulher encaminha-se para a floresta.
Vai devagar. Desce a longa avenida dos ventos que,
rudemente, lhe estilhaçam os ouvidos.

Quis adivinhar o seu rosto. Descrever as cores
do vestido que lhe estreita o corpo, o movimento
dos braços para a frente, o ruído dos passos lentos

sobre as amarelecidas folhas. Mas ela é, cada vez mais,
um ponto que se afasta. Uma vontade perdida
para o dobrar das árvores à sua passagem.

Quando a mulher entrar na floresta
Tudo se suspenderá. A solidão da paisagem
será a minha solidão.

Os meus olhos serão os olhos da paisagem.

Luís Quintais,
in «JL», de 15/2/1995